


Uma questo moral


Um conto de futebol CRISTOVO TEZZA

Tentou ajeitar o relgio no pulso - ou o crongrafo, como ele gostava de
frisar aos ignorantes -, com uma ansiedade que logo se transformou em
tenso muscular, subindo pelo brao at se alojar discreta no lado
esquerdo de suas costas, ele at poderia apontar com o dedo se a mo
chegasse quele ponto cego de si mesmo:  aqui, doutor, se eu mexo
assim, o corpo torcido no esforo, a pontada exata na alma do nervo.

Apenas um rosto, praticamente um vulto que ele viu de passagem ao descer
ao vestirio para se trocar, depois de cumprimentar os conhecidos com a
gentileza contida que seu trabalho exigia, teve esse poder eltrico de
acord-lo no mau sentido: sim, era o Robertson, ou o Bets, apelido de
infncia, ele conheceu todas as verses do mesmo ser, acompanhou cada
passo inicial de sua carreira quase fulgurante, que se estagnou como
reserva do Corinthians, para da cair e desaparecer com a mesma
facilidade, o driblador, o pipoqueiro, o malandro, o goleador de lua, o
criador de caso.

Nunca mais ouviu falar. Assim como nunca mais ouviu falar da Maria, que
se evaporou mais fulgurante ainda. E agora (estaria com 38 anos, como
ele?) reaparece neste fim de mundo e neste campo esburacado, exatamente
com o mesmo sorriso, para tentar levar aquele timeco  srie B, no
penltimo jogo da rodada, talvez o ltimo da vida dele. Ento  aqui que
ele veio parar? Enfim conseguiu fechar a pulseira do crongrafo,
brilhante no seu brao, e sorriu cordial para os dois bandeiras, que,
disciplinados no banco diante dele, aguardavam o momento de subir,
orgulhosos no uniforme preto.

Um deles era conhecido, o Mauro, bom menino, frequentava a igreja, tinha
futuro; o outro nunca tinha visto mais gordo, indicao sabe-se l de
quem, prazer, Edislon, disse o garoto, prazer, Joo Batista, disse ele,
e trocaram algumas palavras, mas ele estava tenso e irritou-se mais por
imaginar que talvez pensassem que a tenso viesse do medo do jogo e da
torcida, esmagada como um bicho atrs da tela de arame a poucos metros
do campo, eu j passei por isso milhares de vezes, teve vontade de
dizer, eu seguro esse povo no grito e no apito, comigo no tem conversa:
uma vez esmurrou um presidente de clube que chegou a ele num vestirio
como esse com um envelope cheio e um sorrisinho sacana, o que lhe valeu
uma suspenso interminvel, que se fodam, eu no preciso dessa merda,
eles  que precisam de mim, como agora, me desenterrando do limbo para
esse jogo de vida e morte, isso aqui  o inferno, por isso que me
chamaram.

E quem eu encontro no campo, ele se imaginou justificando-se ao Tribunal
Desportivo, para onde com certeza ser chamado, quem sabe  prpria
mulher e aos seus trs filhos, no, isso no, que no merecem a culpa.
Mas algum teria de saber realmente o que houve, e ele conferiu a
amarrao do apito no seu pulso direito para no perd-lo, a sua arma, 
minha arma branca, um dia disse a um amigo com um raro sorriso, ele
jamais fazia piada de seu trabalho, uma arma branca no bom sentido,
corrigiu, que no pensassem que.

E lembra do velho amigo com quem rompeu s porque, chegando  sua casa
nova no bairro Madalena, erguida com o suor do seu rosto desde o terreno
em 60 prestaes, e depois tbua a tbua, pintadas por ele mesmo em cada
friso, para quem trabalha de segurana a vida  dura, e o cara d aquele
tapinha nas costas diante de sua obra e diz, vejam se isso  coisa que
se deve ouvir, e diz, o sujeitinho, "Caramba, quantos pnaltis voc teve
de apitar pra construir essa casa? S naquela varanda tem uns cinco
impedimentos, ahah!", e o churrasco entre amigos azedou, como se ele de
fato tivesse pnaltis nas costas, nenhum, seu vagabundo, nenhum! Calma,
Joo Batista, foi brincadeira, p, a gente se conhece h quantos anos?!

Ele olhou o crongrafo (custou caro esse relgio, esse sim, veio com o
travo do suprfluo, uma expresso que ele guardou de um sermo e agora
repetia ao delegado, enfim era o orgulho aceitvel da profisso bem
exercida, mas a casa  sempre trabalho sagrado, ele que fizesse
brincadeira com a me dele) e sugeriu aos dois novatos uma breve orao
antes do jogo, e os trs fecharam os olhos (ele no ouviu a voz do
Edislon, que talvez nem tivesse mantido os olhos fechados em respeito,
quem sabe no fosse catlico), Pai Nosso que estais no Cu, e de novo se
cumprimentaram, um pouco mais relaxados agora, e o rugido que chegava
pelo pequeno tnel deste estdio metido a besta, ele pensou, parece que
mais os estimulava que amedrontava, mas ele pressentia o temor dos dois
jovens colegas, subir ao campo era descer ao inferno, o grande teste da
nossa profisso, pensou em dizer, como o veterano que orienta, j quase
esquecido do Bets, mas era o prprio mesmo, nenhuma dvida, ele ainda
tentava se persuadir do contrrio para se livrar do que deveria
enfrentar.

Era ele sim, o Bets, bem acabado para a idade, e conferiu ainda a moeda
para o sorteio e os cartes no bolso da camisa, o amarelo na frente (uma
vez trocou os cartes e no destrocou para no perder autoridade, uma
falta ridcula punida com carto vermelho, o pior erro de sua carreira),
e ali estavam quatro policiais militares  espera para que a trinca de
rbitros chegasse ao campo em segurana, uns poucos passos sob a torcida
ululante, ele nem ouvia mais, conferindo num lado, depois no outro, a
perfeita fixao das redes sob o gol (outra vez quase apitou um
gol-fantasma, a bola entrando por fora e se aninhando vagabunda no
fundo, no fosse o auxiliar erguer a bandeira, ele -).

Sim, o Robertson, perdeu tudo mas no perdeu a pose, faixa de capito,
mos na cintura e o sorriso perpetuamente cnico, ele sabe o mal que ele
faz,  espera do incio no crculo central, desde j conferindo o lado
em que o sol se punha para azar do goleiro, deu coroa, ele sempre teve
sorte mas nunca soube o que fazer com ela, escolheu o lado e
distriburam-se os times, os cumprimentos de praxe (ele de fato no me
reconheceu), e antes de esticar o brao e dar partida, o nmero 7 deles
aguardava o incio ostensivamente no campo do adversrio; ao ser
advertido, agachou-se para amarrar o cordo da chuteira, e ele no teve
dvidas, avanou com o amarelo, o primeiro do jogo, antes mesmo de o
jogo comear, v fazer gracinha na casa da sua me, quase disse, mas o
tumulto foi breve, algum empurrou o idiota reclamo de volta ao seu
campo e o primeiro apito se perdeu sob a vaia ensurdecedora, e s ento
ele fez o sinal da cruz, j correndo de olho na bola: hoje ele paga.

O jogo estava lento mais de nervoso do que de estudo, o que lhe dava
tempo para pensar, vendo as coisas de longe, mas que no se enganasse:
uma panela de presso chiando baixo naqueles primeiros dez minutos, e
com o rabo do olho percebeu que Robertson s ficava no bem-bom, l na
frente, deitado na banheira, economizando gs,  espera de uma bola
solta e perdida que faria sua glria diante do goleiro em pnico, mas o
jogo no saa do meio, passes curtos e errados dos dois times, na dvida
o chuto para a frente e para os lados.

Talvez expuls-lo logo, mas isso seria pouco para fazer justia.
Percebeu o lateral para o time deles, a bola raspou na canela da defesa
antes de sair, mas Edislon, de boa-f, sem ngulo para ver, deu o
contrrio, o que ele aceitou, e foi o bandeira que levou a vaia. A
paixo que sentia por ela, nos 18 anos, em janeiro de 1992, mas ele no
podia dizer agora, porque casou com outra. No foi covardia. Que homem
casaria com ela naquela situao? Eles no eram nem noivos, apenas
apaixonados de mos dadas, o que era melhor ainda, ele sonhou. Um ato de
justia a se fazer, no por dinheiro, que no sou disso, mas por
justia, ele teria de dizer em alto e bom som (na verdade, j livre,
cochichou ao padre Zlio quinze dias depois, e ouviu na penumbra do
confessionrio um longo silncio que ele imaginou compreensivo), e
apitou com prazer o impedimento escancarado de Robertson, voltando dos
cinco metros de banheira fazendo o "no" cnico e sorridente com a
cabea, ele  engraadinho.

E no est mesmo me reconhecendo, o que facilita as coisas. Inverteu uma
falta clara que o idiota do camisa 7 levou, mandou-o levantar-se logo,
daqui a pouco ele leva o segundo amarelo, fez a marca no gramado e
correu para a rea inimiga, contando em passos generosos a distncia da
barreira, eles que levassem logo um gol nos cornos, mas a bola foi parar
no ltimo anel da arquibancada. O goleiro fez cera para cobrar o tiro de
meta (o empate classificava o time deles), e ele fez vista grossa, ainda
pensando numa estratgia. Talvez devesse odiar Maria, no Robertson, mas
no conseguia. Ainda foi perguntar, dois dias depois da tragdia, se ela
precisava de alguma coisa, humilde como um tatu, e ela abraou-o to
carinhosamente, chorando feito criana, se ele tivesse foras para
enfrentar a vergonha, mas no teve; ela ainda disse, fique comigo, por
favor.

Humilde at certo ponto, certo? Tem um limite que. O senhor compreende,
padre Zlio? Nenhuma resposta -algumas coisas so to nossas que Deus
no se mete. O problema era s meu, como agora: Robertson levou uma
sarrafada na meia-lua, a primeira bola que chegou ali, e ele quase manda
seguir o jogo, mas o urro da plateia como que apitou por ele. Faa a
coisa bem feita, ele se disse, voc tem um nome. No deixe rastro. Ainda
mancando, Robertson ajeitou demoradamente a bola no tufo de grama, um
trabalho de relojoeiro, e olhou para a frente. Dez minutos de jogo e
esse canalha vai fazer um gol, e ele procurou por algum impedido para
apitar j no chute e parar o lance, mas no havia nem com a ddiva da
dvida: um burro deles amarrado no segundo pau, ao lado do goleiro, dava
condio escancarada, eles esto brincando, mas o chute bateu na
barreira e voltou para ningum.

No se lembra bem do que houve, ele disse ao prestar depoimento, e foi
sincero. Deu aquele branco. Mas se lembra de cada segundo da Maria,
vinte anos antes, o vazio da revelao, e ele em seguida, meio cego,
casou com outra, com quem vive at hoje e de quem tem trs filhos, e
quer saber de uma coisa? Jamais gostei da minha mulher e nem meus filhos
me apaixonaram, um depois do outro, mas a gente vai levando o que  da
natureza, pelo amor de Deus, eu nunca disse isso a ningum, mas  o que
eu sinto aqui no peito. E se fosse outra mulher e outros filhos seria
tudo a mesma coisa. S a Maria.

No intervalo, sob a tenso do zero a zero, voltando ao vestirio,
pressentiu que tambm para ele aquele era um ltimo jogo. Os bandeiras
talvez estranhassem a concentrao soturna do rbitro, ele no queria
falar. Tentou lembrar as quatro situaes marcantes do primeiro tempo em
que ele poderia ter apitado errado, com fria e determinao, provocando
a reclamao tambm furiosa que o levaria no ato a puxar o carto
vermelho vingador, ele ensaiava mentalmente o gesto, um final
melanclico para Robertson e uma vingana justa para Maria. Sairia
desonrado de campo sob a dupla justia da vaia e da suspenso automtica
no prximo e ltimo jogo do torneio, enterrando a si mesmo e ao seu
time, que s precisava de um nico gol. Mas nenhum dos lances foi
ambguo: faltas claras como gua e brutas como porretes, que eles sabiam
do perigo daquele velho em fim de carreira, e ao apitar o lance o brao
se esticava para o lado certo e justo, como se ele fosse pago pelo
Robertson, que se erguia abraando sedento a bola e reclamando carto ao
adversrio, o cara nunca est satisfeito.

Uma hora essa bola vai entrar e ele vai sair carregado de campo,
imaginou em pnico, e eu s tenho 45 minutos. No dizia uma s palavra
no vestirio, como se a vida lhe casse nas costas de uma vez s: Maria
confessando que estava grvida. "O Robertson." Como se, dizendo o nome
inteiro e no o apelido de rua, as coisas ficassem mais dignas. Ele se
afastou sem olhar para trs, subitamente bbado, passos perdidos, a
falta de ar, e quando ela comeou a segui-lo suplicante, puxando seu
ombro com a mo suada, ele correu trs quilmetros at parar e vomitar,
como se o filho estivesse na barriga dele. No dia seguinte, por mais que
quebrasse a cabea no conseguia imaginar o desenho de um mundo em que
ele tivesse lugar. E eu sou uma pessoa boa. E no terceiro dia foi
abra-la, mas terminou ali. Robertson h dois meses j estava
contratado em Recife, o que prometia muito.

- Me jogaram uma garrafa de plstico - disse Edislon, sem nfase. E,
para que ningum se incomodasse: - Nem me acertou. Aquele povo xinga
muito.

- Eu vou anotar na smula - ele disse enfim, maquinal, pensando em outra
coisa: o Edislon poderia ser filho dela, a idade provavelmente bate,
assim como Mauro. Todos pardos. E disfaradamente conferiu mais uma vez
a lista de jogadores: 10, Robertson.  ele sim.

Um jogo horroroso no segundo tempo, e ele continuava incapaz de ser
injusto, s apitando errado, covarde, quando os bandeiras erravam, o que
foi aumentando a irritao, principalmente com o cinismo daquele que era
caado em campo como um co sarnento, sempre se levantando sorridente
como se no fosse com ele e ajeitando a bola com a mesma determinao
intil. Ele est velho, no v mais nada, o chute  torto e a partida da
vida dele est chegando ao fim. Eu ainda posso apitar por alguns anos,
mas ele no pode mais jogar nem meio tempo, e sabe disso. S a piedade e
o desespero o mantm em campo.

Trinta minutos de jogo e um nico chute a gol, do outro time. Robertson
a vida inteira plantado no meio de campo com as mos na cintura,
esperando um milagre. Num momento, sobe a placa de substituio, e Joo
Batista sentiu o frio na alma: vo troc-lo, e ele vai fugir de novo,
como se nada tivesse a ver com ele, nem mesmo este jogo. Mas no, era o
grosso do camisa 2 que queriam, antes que levasse o vermelho. Olhou para
o crongrafo: vou dar mais quatro minutos pela cera.

Ento aconteceu, ele se viu contando ao delegado como se fosse essa a
questo, e no a outra: numa sequncia de chutes desesperados a bola
caiu na rea exatamente ao longo do peito dele, inclinado
caprichosamente para trs, de costas para o gol e braos abertos; e ele
deu um chapu como nunca na vida, levou um empurro que, agora sim, eu
no apitei, e o filho da puta conseguiu dar um segundo chapu mesmo sem
equilbrio, j entrando na pequena rea, e levou um pontap no tornozelo
que eu tambm no apitei porque uma hora aquilo ia acabar e ningum
conseguia ver nada, era s o que faltava eu apitar um pnalti ali, cinco
jogadores erguendo um muro em torno dele, at que ele deu s cegas um
toque de calcanhar sem saber o que fazia e o goleiro pego no contrap
caiu de boca na grama como um ganso bbado, o brao intil para o outro
lado, e a bola devagar cruzou a linha parando mansa trs palmos adiante,
imvel como um presente.

Aquilo me transtornou. Eu deveria ter apitado antes algum perigo de gol
assim que a bola subisse em direo da rea, mas agora era tarde, o
idiota do Edislon correu feliz para o meio do campo como se fosse o
filho dele, a torcida urrava e eu fiquei sem libi. Vi ainda os dez
jogadores fazendo uma pirmide de alegria sobre o corpo magro e ruim de
Robertson, que levaram carregado para o meio do campo, como eu previa.
Voltei ao crculo central sem nem mesmo apitar o gol, que apitava a si
mesmo, dispensando meus servios. Olhei ainda para o crongrafo,
calculando o que faltava de tempo, que era nada, apitei fraco o recomeo
e no segundo passe ergui os dois braos para acabar com a agonia. Quando
Robertson veio me cumprimentar com aquele sorriso cnico eu. No sei.
Disseram que eu acertei um soco no nariz e outro na boca, mas quem
desmaiou fui eu. Acordei no vestirio, com quatro meganhas, dois dedos
quebrados na mo direita e essas algemas, como se o culpado fosse eu. Se
foi mesmo isso que dizem, estou com a conscincia tranquila, porque o
injusto no pode ser recompensado -  apenas uma questo moral.
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Ilustrssima Semana


O MELHOR DA CULTURA EM 7 INDICAES



BRASILEIRO

REVISTA | CADERNOS PAGU Entre os artigos do dossi "Gnero e
Alimentao", da revista do Ncleo de Estudos de Gnero - Pagu, da
Unicamp, Carole M. Counihan fornece uma viso antropolgica sobre "o
jejum das mulheres ocidentais" e pe em perspectiva cultural problemas
como a anorexia; e o socilogo Carlos Alberto Dria investiga a
masculinizao do trabalho na cozinha a partir de leituras de Jorge
Amado, Marcel Mauss e Auguste Escoffier. 480 pgs. | R$ 50 (assinatura
anual, duas edies)

LIVRO | VOC EST FELIZ? Jogos, comida, rituais e gua -muita gua- so
alguns dos motivos e panos de fundo para situaes de felicidade
capturadas por Miguel Rio Branco. Em quase 400 pginas s de imagens,
sem outras palavras alm do ttulo que lhes d unidade temtica, o
fotgrafo e artista plstico nascido nas Canrias (Espanha) em 1946
sugere que h muitas respostas para a pergunta que prope. Cosac Naify
|384 pgs. | R$ 198

ERUDITO

MILHARES DE NOITES Diogo Bercito faz trs perguntas a Mamede Mustafa
Jarouche, professor de lngua rabe da USP e tradutor do "Livro das Mil
e Uma Noites" (Biblioteca Azul, 4 vols., 1.684 pgs., R$ 159,90)

Folha - Sherazade teve 1.001 noites para narrar seus contos. Sua
traduo levou quase dez anos. Qual foi o incentivo? Jarouche - O livro
por si s, por paradoxal que seja,  a histria das tradues dele. 
uma obra que pede traduo, devido  pluralidade,  diversidade de
manuscritos e de histrias. Isso  estimulante para o tradutor.

Como est a traduo da literatura rabe para o portugus, hoje? As
editoras tm interesse, at porque o mundo rabe est na ordem do dia.
Mas os tradutores so poucos, o que abre um campo de possibilidades.

Quais so seus projetos de traduo em andamento? Estou com trs
projetos simultneos. "O Colar da Pomba" (Ibn Hazm), um tratado do
sculo 11 sobre o amor. Alm disso, um tratado ertico e um tratado
poltico em forma de fbula.

LIVRO | O BOI NO TELHADO O francs Darius Milhaud (1892-1974) tinha 25
anos quando chegou ao Rio como secretrio da embaixada francesa
comandada pelo poeta Paul Claudel (1868-1955). Era o Carnaval de 1917, e
"Pelo Telefone", primeiro samba gravado, invadia as ruas. Milhaud,
influente compositor do sculo 20, deixou-se marcar pela experincia
carioca em obras como o bal sinfnico "O Boi no Telhado" (1919), que 
analisado em seis ensaios, um deles de Jean Cocteau. O livro traz ainda
um CD com duas verses da obra. Org. Manoel Aranha Corra do Lago IMS
|304 pgs. | R$ 60

ESTRANGEIRO

LIVRO | FRED VARGAS Assassinatos em srie num vilarejo medieval da
Normandia so o motor de "O Exrcito Furioso", novo livro da
historiadora e arqueloga parisiense que se celebrizou ao se tornar uma
best-seller do "polar", o romance policial francs -e, mais tarde, como
defensora ferrenha de Cesare Battisti, condenado na Itlia por
terrorismo e asilado no Brasil. Trad. Dorothe de Bruchard | Companhia
das Letras | 408 pgs. | R$ 49,50

LIVRO | LIU XIAOBO Em dezembro de 2010, o ativista chins recebeu o
Prmio Nobel da Paz por sua luta em favor dos direitos humanos em seu
pas. Dois anos antes, havia sido condenado a 11 anos de priso por ter
escrito uma carta que, segundo a acusao, "incita  desmoralizao do
poder estatal". "No Tenho Inimigos, Desconheo o dio" rene escritos
sobre poltica, cultura e sociedade, alm de poemas. Prefcio do
ex-presidente tcheco e Vclav Havel (1936-2011). trad. Pet Rissatti |
L&PM 360 pgs. | R$ 59

POP

LIVRO | COLEO DE MO EM MO A srie coeditada pela Prefeitura de SP,
Imprensa Oficial do Estado de SP e Editora Unesp lana "Ningum Morre
Duas Vezes", livro de contos de Luiz Lopes Coelho (1911-75), pioneiro da
literatura policial no Brasil, e "So Paulo em Guerra - 1924", histria
em quadrinhos indita do gacho Eloar Guazelli, baseada em "A Coluna da
Morte", de Joo Cabanas. Os livros da coleo so distribudos
gratuitamente em terminais de transporte da capital paulista e podem ser
baixados no site projetodemaoemmao.com.br 160 pgs. (Coelho) | 126 pgs.
(Guazzelli) | grtis
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Ilustrssimos desta Edio



ANDR VALLIAS , 49,  poeta, designer grfico e editor da revista online
Errtica ( www.erratica.com.br ). Publicou "Heine, Hein? - Poeta dos
Contrrios" (Perspectiva), antologia do poeta alemo Heinrich Heine
(1797-1856). Pg. 8 BRUNO GHETTI , 33,  crtico de cinema. Pg. 6
CRISTOVO TEZZA , 60,  autor da autobiografia literria "O Esprito da
Prosa" (2012) e do premiado romance "O Filho Eterno" (2007). Ambos pela
Record. Pg. 4 FLVIO DAMM , 84,  fotgrafo. Trabalhou por uma dcada e
meia na revista "O Cruzeiro" e fundou, com Jos Medeiros, a agncia
Image. Uma seleo de seu trabalho pode ser conhecida no livro "Flvio
Damm" (ed. Senac). Pg. 3 HELOISA JAHN , 65,  tradutora e editora. Pg.
7 MARCELO COMPARINI , 32,  pintor. Pg. 4 MARINA DARMAROS , 29, 
jornalista. Pg. 7
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Na internet



A BIBLIOTECA DE RAQUEL A reprter da "Ilustrada" e colunista do Painel
das Letras comenta as notcias do mercado editorial

FOLHA.COM/ILUSTRISSIMA
site da Folha

O CRUZEIRO Galeria de imagens do livro que ser lanado pelo Instituto
Moreira Salles

FLVIO DAMM Leia ntegra do depoimento do fotgrafo sobre a revista "O
Cruzeiro"

folha.com/ilustrissima
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Entrevista Luc Dardenne

Deus aps a morte


Cineasta belga fala de seu livro filosfico BRUNO GHETTI

RESUMO Consagrado ao lado de seu irmo Jean-Pierre por filmes como "A
Rosetta", Luc Dardenne fez uma incurso na filosofia com ensaio sobre
afetividade e existncia, marcado por noes como solidariedade,
simpatia e responsabilidade pelo outro. Livro e obra cinematogrfica
iluminam-se mutuamente.

Enquanto concebia o roteiro de "O Garoto da Bicicleta" (2011), o diretor
belga Luc Dardenne, 58, teve sua mente invadida por pensamentos
filosficos. O filme (codirigido pelo irmo Jean-Pierre, seu parceiro
artstico) mostra o encontro entre um menino abandonado pelo pai e uma
cabeleireira que, sem razo explcita, resolve cuidar dele, dando-lhe
amor e proteo.

Intrigado pela natureza dessa relao desinteressada entre uma pessoa e
o "outro", por aquilo que faz algum am-lo e olhar por ele, Dardenne
lanou-se a uma srie de questionamentos sobre as relaes humanas.
Depois de traduzir suas concluses em imagens (no longa), decidiu ir
alm: desenvolveu-as em "Sur l'Affaire Humaine" [Seuil, 190 pgs., R$
48], lanado no ano passado na Frana.

A partir da noo nietzschiana da "morte de Deus", Dardenne discorre
sobre o medo humano de morrer, a necessidade da substituio de Deus e a
importncia das relaes entre as pessoas. A obra apresenta conceitos
filosficos nem sempre claros para um no iniciado, mas a prosa 
surpreendentemente fluida e clara.

O livro  fortemente influenciado pela tica da alteridade proposta pelo
franco-lituano Emmanuel Levinas (1906-95), de quem Dardenne foi aluno na
faculdade de filosofia em Louvain, em 1980. Para o belga, passado o luto
pela "morte de Deus", o ser humano precisa desenvolver uma moral humana,
no mais divina.

A relao com o outro se torna elemento central dessa moral, inspirada
no pensamento levinasiano sobre um "eu" tico que aparece sob a injuno
de um outro que clama por ser socorrido -uma demanda de no ser deixado
abandonado. Como se, na falta de um Deus todo-poderoso, o "eu" (ou o
"outro", dependendo do caso) assumisse atribuies "divinas".

Noes como solidariedade, simpatia e responsabilidade pelo outro so
examinadas no livro, um excelente complemento aos filmes da dupla -ele
esclarece e aprofunda questes s sugeridas nos extraordinrios "A
Promessa" (1996) e "O Filho" (2002) e nos vencedores da Palma de Ouro
"Rosetta" (1999) e "A Criana" (2005).

Os irmos Dardenne figuram hoje entre os cineastas mais influentes das
ltimas duas dcadas: seu estilo seco, com sequncias longas e a cmera
colada no protagonista tem sido imitado ad infinitum (raramente com bons
resultados, diga-se). Seus personagens so incansveis guerreiros que
lutam pela sobrevivncia em um mundo pouco solidrio. Mas, de repente,
uma prova de humanidade, um toque de Graa, surge de onde menos se
espera, e o ser humano j no se sente to entregue  prpria sorte.

Sobre o livro e seus pontos de contato com seus filmes, Luc Dardenne
falou, por email,  Folha .

Folha - A ideia de "Sur l'Affaire Humaine" surgiu durante a criao do
roteiro de "O Garoto da Bicicleta". Como aquela histria o levou a um
livro to srio e filosfico?

Luc Dardenne - Nos dois anos de desenvolvimento do roteiro, quando
estava obcecado por aquele garoto solitrio, abandonado e violento,
procurava palavras, olhares e gestos para ele projetando-me nele e
conversando com frequncia com meu irmo. Toda essa atividade me fechou
em pensamentos que se ligavam a questes filosficas que me interessam
h muito tempo, como a solido, a simpatia, a responsabilidade pelo
outro, o assassinato -questes suscitadas por minhas leituras da obra de
Levinas. Uma das questes que me perseguia era saber: por que o amor da
personagem Samantha, uma mulher desconhecida, que surgiu por acaso,
seria capaz de abrandar o sofrimento do garoto da bicicleta?

Logo no incio,  evocado o clebre "Deus est morto", de Nietzsche. Mas
130 anos aps o filsofo t-lo "enterrado", Deus segue como uma espcie
de obsesso entre os humanos - filsofos, inclusive. A declarao da
morte teria tornado Deus ainda mais vivo?

Meu pequeno livro no  de forma alguma uma discusso sobre a morte ou
sobrevivncia de Deus. De certo modo, falo somente de mim, para quem
Deus est morto; apenas fao ruminaes, pensamentos obsessivos sobre a
necessidade de consolao que tenho em mim, em minhas inervaes, assim
como o garoto da bicicleta, meu "alter ego". O que eu posso esperar 
que esses pensamentos que me deixam obcecados sejam o sintoma de alguma
coisa que ultrapassa a minha pessoa e movimente o pensamento dos outros.

Voc sugere que Deus no est to morto assim -h uma entidade prxima,
mas terrena e humana: uma figura materna. Quem seria?

Nosso nascimento  indissocivel de um pnico do que est de fora [do
tero], um medo de morrer. Esse medo  abrandado quando entramos em
contato com o amor infinito de um outro -uma me, um pai, biolgico ou
no- capaz de nos fazer sair de uma bolha imaginria e passar a amar o
que est de fora. Necessitamos da existncia de um "Deus" que nos d um
amor mais forte que a morte, uma segurana absoluta.

Tento pensar em como podemos conviver com essa necessidade, mas sem Deus
-vivendo s com nosso elo com o outro humano que nos ama infinitamente e
nos fez amar a vida. Mas,  claro, uma vida que no tem mais nenhuma
garantia de eternidade, uma vida de mortal entre mortais.

Superado Deus,  preciso passar a uma prxima etapa: desenvolver uma
moral antes humana que divina. A humanidade est ainda muito longe de
chegar l?

Questo para um adivinho, o que eu no sou. Podemos, ainda assim, dizer
que o crescimento dos particularismos e das identidades religiosas hoje
em dia pode nos fazer temer pelo pior. Cabe a ns resistir. O cinema
pde ser no passado uma terrvel ferramenta de propaganda, de
disseminao de preconceitos assassinos.

Mas ele pode tambm mostrar seres humanos complexos, singulares e, ao
mesmo tempo, universais, que escapam a todos os preconceitos e que so
capazes de sofrer pelas pessoas que tambm sofrem, que so capazes de
ser felizes por pessoas que manifestam sua alegria de viver. O cinema se
interessa pelo ser humano, qualquer que ele seja, essa  a humanidade de
seu olhar.
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Dirio de Moscou


O mapa da cultura

Paquiderme psicodlico


Os elefantes brancos da stima arte russa MARINA DARMAROS

Aleksandr Sokurov j no esperava por esta: seu "Fausto" (2011) acaba de
receber o "Elefante Branco 2012". No, ele no herdou um aeroporto
abandonado ou um submarino nuclear de segunda mo. O "Elefante Branco" 
um dos principais prmios cinematogrficos do pas, organizado pela
Associao de Especialistas e Crticos de Cinema da Rssia e tem
subsdio do Ministrio da Cultura.

E, apesar de o filme de Sokurov ter sado em 2011 -e ter arrebatado o
Leo de Ouro no Festival de Veneza daquele ano-, seu lanamento russo,
atrasado para o ano passado, permitiu que o diretor vencesse na
categoria de melhor filme russo no Elefante de 2012.

Alm disso, Sokurov levou o prmio de melhor diretor, o dramaturgo Iri
Arabov o de melhor roteirista e Anton Adassnski, que interpreta
Mefistfeles no filme, o de melhor papel masculino.

Com um inusitado jogo de palavras usando o radical "slon" ("elefante",
em russo), "prislonitsya" ("apoiar-se") e "slova" ("palavra"), e
rememorando a habilidade mpar dos elefantes para escutar, ver, lembrar
e cheirar, a associao explica de maneira psicodlica em seu site a
origem do ttulo da premiao.

COM TINTA VERMELHA

Na categoria "Acontecimento do Ano", quem levou o Elefante Branco 2012
foi o filme "Za Marksa" (em traduo livre, "Por Marx", trailer
disponvel em bit.ly/pormarx), da diretora Svetlana Baskova. Tratando do
conflito entre os "novos capitalistas" e a classe trabalhadora russa de
mentalidade sovitica, o roteiro mostra uma crise econmica que leva
donos de fbricas a tentarem resolver seus problemas s custas dos
trabalhadores.

A fico segue-se a outra produo "vermelha" da diretora, o
documentrio de 2011 "A Soluo  a Oposio", em que ela filmou
comcios trabalhistas pas afora.

SENTIMENTAIS

A mentalidade sovitica tambm aflorou na reao  mostra Fim da
Diverso, dos irmos britnicos Jake e Dinos Chapman, inaugurada em
20/10 no Museu Hermitage, em So Petersburgo.

A obra homnima, uma colagem tridimensional de minipersonagens de
plstico colados em vidro -que, olhados por trs, formam uma sustica-,
teria "ferido os sentimentos religiosos" dos visitantes, que enviaram
mais de uma centena de reclamaes  promotoria de So Petersburgo s na
primeira quinzena da exibio.

Para provar o contrrio, o diretor do museu, Mikhail Piotrvski, decidiu
encomendar uma pesquisa de opinio pblica sobre o evento. "Depois da
publicao [da polmica] na imprensa, pessoas de geraes mais velhas
comearam a visitar a exposio. Mas muitas, como se viu, vieram para
apoiar o Hermitage. So importantes sobretudo as crticas positivas que
recebemos das pessoas, de veteranos, que associam a exibio com a
Grande Guerra Patritica [2 Guerra Mundial]. Gente que nasceu em So
Petersburgo e sobreviveu ao cerco entendeu a ideia de brutalidade
transposta pelos artistas  atualidade", declarou Piotrvski.

A organizao "Nardni Sobor" ("Catedral do Povo"), uma espcie de
Tradio, Famlia e Propriedade russa e inimiga nmero um de Piotrvski,
lanou um comunicado em seu site em nome da "Catedral da Intelligentsia
Ortodoxa" exigindo "o fechamento imediato da exposio e posterior
impedimento de exposies do gnero nos museus da Rssia".

DEPARDIEU E RASPUTIN

No teve boa repercusso a oferta de cidadania russa que o presidente
Vladimir Putin fez a Grard Depardieu, na ltima quinta-feira (3). O
ator francs goza de enorme fama no pas -sua cara gorducha pode ser
vista todos os dias nas "sesses da tarde" russas.

Caiu mal a ideia de que Depardieu escolhesse o pas para se refugiar dos
altos impostos franceses. " preciso faz-lo viver aqui na Rssia pelo
menos um ano sem sair do pas. Acho que depois disso ele vai concordar
at com 75% de imposto s para voltar para a ptria", escreveu um
comentarista no site Gazeta.Ru.

O porta-voz de Putin, Dmtri Peskov, explicou  agncia de notcias
Interfax que a oferta foi feita pela contribuio de Depardieu  cultura
e ao cinema russo. "Depardieu atuou em uma srie de projetos de cinema
muito grandes, entre eles, fazendo o famoso papel de Rasputin", declarou
Peskov.

Enquanto o destino do ator se decide, ele j recebeu um convite para
morar na Rssia. O anfitrio  o ditador da Tchetchnia, Ramzan Kadrov,
que props via Twitter que Depardieu viva na capital tchetchena, Grzni.
xxxx


Arquivo Aberto


Memrias que viram histrias

O ltimo rango


Braslia, 1982 HELOISA JAHN

Numa noite de 1982, em Braslia, seria a estreia da pea de Pingo, "O
ltimo Rango". Fazia um bom tempo que o amigo ator e criador de
dramaturgias estava fora dos palcos e a expectativa era grande.

Anos antes, Jota Pingo (1946-2012)-nascido Carlos Augusto de Campos
Velho, gacho, irmo mais moo do ator Paulo Csar Pereio- atuara no
"Hair", uma espcie de clich que o acompanhava sempre que se queria dar
a ficha do grando de olhos luminosos que em qualquer situao
surpreendia.

Comeo de noite. O local era um teatro, uma espcie de barraco na W2,
em Braslia. Poucos carros passavam. Uma fila se formou,  espera da
abertura da bilheteria. Apareceram os membros da trupe com canequinhas
de alumnio, que foram distribuindo pela fila. A canequinha vinha cheia
de cachaa.

Ao entrar, demos com um recinto inesperado: o pblico se acomodaria em
mesas, como numa tasca rstica. Desde a fila, a bebida criara entre os
que chegavam um sentimento eufrico de confraternizao e curiosidade:
de adeso ao que viria, fosse o que fosse. Haveria mesmo uma pea? Ao
fundo, num ponto central, numa boca de gs, havia um panelo fechado. 
esquerda, no alto, via-se um balco onde uma banda tocava um rock
descabelado em alto volume. Algum acendeu o fogo sob o panelo.

Sentados s mesas, caneca na mo, servidos constantemente pelos
garons-atores, ns, o pblico, conversvamos, ramos, j esquecidos de
que viramos assistir a um espetculo: a sucesso tradicional de fatos
-comprar ingresso, entrar, instalar-se, silenciar- estava mais que
subvertida: deixara de existir.

Por isso, quando a msica parou e os atores comearam a andar por cima
das mesas falando textos, assumindo papis dramticos, o pblico j
estava longe e sentiu-se atrapalhado em sua prpria atuao. Os ps que
passavam  nossa frente enquanto conversvamos com o novssimo amigo do
outro lado da mesa pareciam um tanto acintosos: a partir de certo
momento fomos convidados a danar ao som daquele rock doido, numa
clareira entre as mesas. Isso sim, queramos fazer: danar, erguer os
braos, cantar aos berros. O chato era que os atores no nos largavam:
no meio da dana, apareciam e nos instruam a voltar para as mesas para
que a encenao prosseguisse. A banda se calava, o pblico se sentava,
os atores subiam nas mesas e diziam seus textos. A panela havia comeado
a fumegar.

Os ciclos mesa-atuao-rock-dana foram se sucedendo. Num dos momentos
dana, vi uma nuvem branca avanar sobre ns, vinda da esquerda.
Encantou-me o fato de que alm de todos os elementos literalmente
sensacionais da situao, o grupo tivesse produzido uma nvoa de gelo
seco. Quando a nuvem chegou aonde estvamos, senti dificuldade para
respirar e corri para a mesa, com o resto do pblico. Apareceram
bombeiros aos gritos, instruindo todos a abandonar o local. Ainda ouvi
uma mulher dizer preocupada ao acompanhante: "Isto aqui vai acabar em
suruba".

Na calada, parte de ns ficou  espera dos acontecimentos, mas a
maioria foi embora. Dali a 15 minutos apareceram de novo os atores,
convidando-nos a voltar.

Tudo estava coberto por uma camada fina de p branco, resultado, como
logo ficamos sabendo, da asperso do contedo de um extintor de incndio
por um dos membros da banda (em tempo: a banda era Aborto Eltrico, e
seu lder, Renato Russo). No ar, um timo cheiro de sopa. Ns, o
pblico, ramos, agora, umas 20 pessoas. No havia como retomar a
encenao; vi o Pingo numa mesa ao fundo, sem camisa, de cabea deitada
sobre os braos, imagem da derrota.

A tampa da panela, coberta de p branco, trepidava com o vapor que saa.
Distriburam pratos de alumnio e colheres; formou-se uma fila quase
burocrtica e o ltimo rango foi servido com certa solenidade.
    *



xxxxImaginao


Prosa, poesia e traduo

Totem ANDR VALLIAS POEMA

sou guarani kaiow munduruku, kadiwu arapium, pankar xok, tapuio,
xeru

yanomami, asurini cinta larga, kayap waimiri atroari tariana, patax

kalapalo, nambikwara jenipapo-kanind amondawa, potiguara kalabaa,
arawet

migueleno, karaj tabajara, bakairi gavio, tupinamb anac, kanamari

deni, xavante, zor aran, pankarar palikur, ingarik makurap, apinay

matss, uru eu wau wau pira-tapuya, akuntsu kisdj, kinikinau
ashaninka, matipu

sou wari', nadb, terena puyanawa, paumari, wassu-cocal, warekena
purobor, krikati ka'apor, nahuku jiahui, baniwa, temb kuikuro,
kaxinaw naruvotu, trememb

kuntanawa, aikan juma, tor, kaxix siriano, pipip rikbakts, karapot

krepumkatey, aru kaxuyana, arikapu witoto, pankaiuk tapeba, karuazu

desana, parakan jarawara, kaiabi fulni-, apurin charrua, iss, nukini

aweti, nawa, korubo miranha, kantarur karitiana, marubo yawalapiti,
zo'

parintintin, katukina wayana, xakriab yaminaw, umutina av-canoeiro,
kwaz

sou enawen-naw chiquitano, apiak manchineri, kano pirah, kamaiur

jamamadi, guajajara anamb, tingui-bot, yudj, kambeba, arara aparai,
jiripanc

krenak, xerente, ticuna krah, tukano, trumai patamona, karipuna
hixkaryana, waiwai

katuenayana, bar menky manoki, truk kapinaw, java karapan, panar

sakurabiat, kaingang kotiria, makuxi maxakali, taurepang aripuan,
paresi

iranxe, kamba, tux tapirap, wajuru mehinako, kambiw ariken, pankararu

sou guaj, djeoromitxi koiupank, tunayana ikolen, dow, wajpi amawka,
barasana

kubeo, kulina, ikpeng ofai, hupda, xipaya suru paiter, xokleng
tupiniquim, kuruaya

zuruah, galibi tsohom-dyapa, wauj xukuru, kaxarari tuyuka, tumbalal

borari, amanay hi-merim, aikewara kujubim, arikos arapaso, turiwara

kalank, pitaguary shanenawa, tapayuna coripaco, kiriri kaimb, kokama,
makuna

matis, karo, banaw chamacoco, tenharim tupari, kreny, bar wapixana,
oro win

sater maw, guat xet, bororo, atikum ye'kuana, tiriy canela, mura,
borum

SOBRE O TEXTO "Totem" foi concebido pelo poeta Andr Vallias para ser
reproduzido em 13 metros de comprimento, no cho do centro cultural Oi
Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro (rua Visconde de Piraj, 54, de
sbado, 12, a 31/3, de tera a domingo, das 13h s 21h. Grtis). Vallias
criou uma tipologia especial para apresentar o poema na mostra, alm de
um totem multimdia e uma vitrine com informaes sobre as 223 etnias
citadas. Leia apresentao do poema pelo antroplogo Eduardo Viveiros de
Castro em folha.com/ilustrissima.
